Quinta-Feira, 17 de Junho de 2021

‘Em Nome de Deus’: Globoplay lança série documental original sobre o caso João de Deus

Pedro Bial e equipe se reuniram virtualmente com jornalistas para contar detalhes sobre a produção exclusiva com seis episódios

Por Gshow — Rio de Janeiro

19/06/2020 19h30  Atualizado há um dia


'Em Nome de Deus': Globoplay lança série documental original sobre o caso João de Deus
Globo/ Maurício Fidalgo

Mais de um ano depois da denúncia exibida com exclusividade no programa Conversa com Bial, em 7 de dezembro de 2018, sobre acusações de abusos sexuais envolvendo o médium João de Deus, o Globoplay lança o documentário Em Nome de Deus. A produção acompanha a história do médium desde sua infância em Itapaci, em Goiás, até sua prisão por crimes sexuais. Em seis episódios, a série mostra o trabalho realizado ao longo de 18 meses e aborda os crimes e a dualidade do curandeiro – um homem que inspira fascínio e repulsa.

Pedro Bial, que assina o argumento e a criação do documentário, a roteirista Camila Appel,o diretor e roteirista Ricardo Calil, os diretores Monica Almeida e Gian Carlo Bellotti, e os produtores-executivos Erick Brêtas e Mariano Boni se reuniram para contar detalhes da produção.

Pedro Bial conversou com jornalistas sobre o documentário 'Em Nome de Deus', que estreia nesta terça-feira, 23/6, no Globoplay — Foto: Reprodução internet
Pedro Bial conversou com jornalistas sobre o documentário ‘Em Nome de Deus’, que estreia nesta terça-feira, 23/6, no Globoplay — Foto: Reprodução internet

Diretor de Produtos e Serviços Digitais da Globo, Erick Brêtas celebrou a chegada de Em Nome de Deus ao catálogo do Globoplay. “O documentário está passando por uma fase de ouro. Na Globo, temos no nosso DNA a missão de contar histórias do mundo real. Esse é o segundo documentário original Globoplay – o primeiro foi o da Marielle Franco – e mostra que as evidências já estavam no mundo há muito tempo”.

“O que a gente descobriu era que a história era muito mais profunda. Nos seis episódios, você entende a dimensão do problema. Ter a plataforma que permita contar uma história tão completa é uma das vantagens de 2020”, destacou Erick Brêtas.

“A gente tem um documentário de padrão internacional. O primeiro episódio vai ao ar na terça-feira, após Aruanas, e depois estará disponível para todos no Globoplay. Temos um belíssimo documentário graças ao talento dessa equipe”, ressaltou Mariano Boni.

A denúncia

João Teixeira de Faria é um médium brasileiro, conhecido como João de Deus. Desde 1976, fazia atendimentos espirituais na Casa de Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, Goiás. Ele recebia até 10 mil pessoas por mês, a maioria estrangeiros. Em 2018, o Conversa com Bial mostrou com exclusividade a denúncia de casos de mulheres que se sentiam abusadas sexualmente pelo médium. Além das que deram entrevistas sem serem identificadas, Pedro Bial recebeu no palco do programa uma das vítimas que aceitou se expor, a coreógrafa holandesa Zahira Mous, e também a americana Amy Biank, escritora e coach espiritual, que atuava como guia para americanos em Abadiânia.

“Acho muito improvável que essa história acontecesse em outro país que não fosse o Brasil. Entra nosso histórico de buscar um salvador da pátria. Uma coisa é certa de encontrar nos centros espíritas: o desespero. Isso acrescenta mais uma camada de horror, se aproveitar das pessoas desesperadas em seu movimento mais vulnerável”, destacou Pedro Bial durante a coletiva.

Pedro Bial em uma conversa com uma das vítimas do caso João de Deus — Foto: Globoplay
Pedro Bial em uma conversa com uma das vítimas do caso João de Deus — Foto: Globoplay

Para o jornalista, voltar ao passado é um bom caminho para tentar compreender os caminhos da história. “Como tentar entender como essa cortina de fumaça ficou por tanto tempo? A gente tem que que ir lá para o século XIX, para o coronelismo. João de Deus se torna o coronel da cidade. Ele tinha grandes amizades nas nossas elites, via um círculo de proteção a ele que, em uma sociedade um pouco mais equilibrada, não seria sustentado por tanto tempo”, completa Bial.

Zahira Mous e Amy Biank foram entrevistadas em 2018 no 'Conversa com Bial' — Foto: Globo
Zahira Mous e Amy Biank foram entrevistadas em 2018 no ‘Conversa com Bial’ — Foto: Globo

Assista ao episódio do Conversa com Bial que revelou as denúncias contra João de Deus

A diretora Monica Almeida contou sobre os desafios da produção: “Tentamos muitas brasileiras que tinham medo de falar. Elas têm medo até hoje. A gente se surpreendeu porque achava que era só no Brasil”. Pedro Bial ainda ressaltou a coragem de Zahira Mous: “No momento que a Camila fez a apuração, a gente tinha que ter alguém que mostrasse o rosto. As brasileiras estavam muito próximas do centro”.

Camila Appel, jornalista que conduziu a apuração do caso, reforçou que o contato com Zahira foi fundamental para a denúncia seguir. “As brasileiras tinham muito medo de violência. No começo, a Zahira não queria mostrar o rosto, foram muitas conversas. Existem consequências positivas de você expor o caso, mas também negativas. No Brasil, existe uma cultura de descredibilizar as vítimas. Aqui a gente tem uma impunidade gigantesca”.

A jornalista Camila Appel apurou a denúncia em 2018 — Foto:  Globo/ Maurício Fidalgo
A jornalista Camila Appel apurou a denúncia em 2018 — Foto: Globo/ Maurício Fidalgo

“Durante a nossa investigação, me senti assustada com o tipo de ameaça que o João de Deus fazia, com o jogo mental. Me assustou como essas mulheres já tinham tentando falar e denunciar. Elas tentaram falar antes, mas não foram escutadas. Nosso papel é esse: acolher essas histórias e revelá-las”, acrescenta Camila.

O diretor Gian Bellotti contou sobre o sentimento de medo das vítimas. “Tive oportunidade de estar com as mulheres, era um medo muito presente e assustador. Alem dos abusos, ele fez um abuso da fé. Pessoas que estão ali pelo desespero total. Uma das coisa que mais me impressionou foi a destruição da fé. Tinha um misto de vergonha, de medo, de autosabotagem”.

O início da reportagem

Durante o papo, os jornalistas ainda lembraram que tudo começou quando Bial queria entrevistar João de Deus, que disse que daria a entrevista se o jornalista fosse conhecer a Casa de Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia. Ao pesquisar sobre o local, Bial desistiu da visita.

“Eu fui fazendo a pesquisa e me defrontei com aquela informação: ‘Nós não pedimos nada a quem vem a Abadiânia, apenas fé’. Eu não tinha isso pra oferecer. Não foi só isso. Se tivesse ido como repórter, eu poderia trazer a minha versão, mas a minha ida lá teria uma função, claro. A minha presença poderia ser um aval, assim como foi da Oprah Winfrey. Isso tudo era usado pela Casa. Eu sou supercético. Mas muitas pessoas próximas de mim me davam ótimos depoimentos sobre o João de Deus. Seria omissão a gente não ir atrás da história”.

Pedro Bial em conversa via chamada de vídeo com Zahira Mous — Foto: Globoplay
Pedro Bial em conversa via chamada de vídeo com Zahira Mous — Foto: Globoplay

A partir daí, a jornalista Camila Appel recebeu a informação de uma fonte sobre os possíveis casos de abuso. Foi com esse relato que ela começou a apurar e ter acesso a outras vítimas.

“Eu ia compartilhando todas as descobertas. O Pedro ficou muito impactado de ter um padrão. Esse padrão chamou muita atenção. Eu e Pedro fomos juntos visitar uma das vítimas, foi muito impactante. O papo com a Zahira foi realmente uma gota d’água, agora a gente tem até um dever moral de não deixar isso morrer. É uma aflição muito grande saber de tudo aquilo e ter medo de não conseguir veicular”, explicou Camila.

Os jornalistas perguntaram se a equipe teve algum receio de seguir com a denúncia.

“Medo espiritual nunca tive. Medo de violência, sim. Até porque essas mulheres descreveram ver muitas armas. A gente descobriu uma ficha criminal enorme. Em Abadiânia, eu não fui. A gente chegou à conclusão que era melhor eu não ir”, declarou Camila.

Já Ricardo Calil contou que foi ao local com todas as medidas de segurança: “A cidade tinha uma dependência muito grande da figura dele, econômica e espiritualmente. Como o programa trouxe a primeira denúncia, havia uma certa mágoa das pessoas, a gente teve que chegar com muita cautela”, lembrou.

O documentário

No documentário que chega nesta terça-feira, 23/6, ao Globoplay, algumas das vítimas do médium se encontram em uma roda de conversa com a jornalista Camila Appel, que esteve à frente da apuração da denúncia em 2018, e agora assina o roteiro do projeto. Novas entrevistas com pessoas que tiveram proximidade com o médium e com o caso também conduzem a narrativa dos episódios, incluindo entrevistados de fora do país.

Primeiro encontro das mulheres vítimas do assédio de João de Deus — Foto: Globoplay
Primeiro encontro das mulheres vítimas do assédio de João de Deus — Foto: Globoplay

Monica Almeida conta que os desdobramentos do caso motivaram o documentário. “Depois que o programa foi ao ar, as pessoas continuaram falando com a Camila. É uma rede. Tem muito material, acho que não vai parar nunca”, destacou. Camila acrescentou: “Cada mulher tem um tempo de compreensão que foi um abuso. A história não se esgota, tem muitos casos ainda”.

Ricardo Calil contou que a busca pelas histórias teve um longo caminho. “Com a série, outras histórias podem vir à tona. É um documentário que tem toda uma trajetória histórica dele. Tenho a sensação de que novos fatos podem surgir”.

Pedro Bial ainda revelou que planeja um novo passo importante:

“Eu ainda estou tentando entrevistar o João de Deus. Agora em março, eu finalmente consegui falar com ele. Ele me falou: ‘Eu vou falar e você vai ser o primeiro pra quem eu vou falar”.

A roda de conversa

Momento que em que as mulheres vítimas do assédio de João de Deus se encontraram pela primeira vez — Foto:  Globo/ Maurício Fidalgo
Momento que em que as mulheres vítimas do assédio de João de Deus se encontraram pela primeira vez — Foto: Globo/ Maurício Fidalgo

Entre as entrevistadas do documentário, está Dalva Teixeira, filha de João de Deus, que revela ter sofrido abuso do pai na infância. “É a primeira entrevista que ela dá depois desse recolhimento”, adiantou Ricardo Calil.

Diferente da denúncia de 2018, onde muitas vítimas preferiram manter sigilo sobre suas identidades, no documentário elas aparecem mostrando o rosto. “Elas se mobilizaram para contribuir, perceberam que tinha espaço ainda, elas queriam ajudar a aprofundar essa denúncia. Esse momento da roda é o coração da série, surgiu de uma ideia do Calil. Eu perguntava se elas tinham vontade de se encontrar e conhecer a Zahira. É muito diferente contar essa história por uma mulher que passou por isso”.

Monica adianta que o momento da roda de conversa foi emocionante: “Elas não se conheciam, a gente fez de tudo para elas não se encontrarem antes”.

Pedro Bial também garantiu que ficou comovido com o esforço da equipe com todo este trabalho:

“Fiquei muito orgulhoso de pôr no ar aquele programa. Ontem eu parei pra assistir de novo e, mesmo já conhecendo tudo, eu me emocionei como se tivesse visto pela primeira vez, de chorar. No 7 de dezembro de 2018, eu estava muito no meio dos acontecimentos”

Em Nome de Deus estreia nesta terça-feira, 23/6, no Globoplay. No mesmo dia, o primeiro episódio também vai ao ar na TV, depois de Aruanas. Os seis episódios estarão disponíveis para assinantes do Globoplay, no Brasil e nos Estados Unidos. No Canal Brasil, a série será exibida a partir do dia 24 de junho, de quarta-feira a segunda-feira, sempre às 20h50.

Ficha técnica:

Argumento e criação: Pedro Bial
Roteiro: Camila Appel e Ricardo Calil
Produção musical: Dé Palmeira
Direção de fotografia: Gian Carlo Bellotti e Dudu Levy
Produção: Anelise Franco
Direção de conteúdo: Fellipe Awi
Direção: Gian Carlo Bellotti, Monica Almeida e Ricardo Calil
Produção Executiva: Erick Brêtas e Mariano Boni

FONTE: https://gshow.globo.com/series/em-nome-de-deus/noticia/em-nome-de-deus-globoplay-lanca-serie-documental-original-sobre-o-caso-joao-de-deus.ghtml

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