Sábado, 31 de Outubro de 2020

Ensino na Pandemia: 86% dos pais querem que ano letivo atual continue em 2021, revela pesquisa

Estudo de Harvard aponta que crianças têm alta carga viral e podem ser mais contagiosas do que adultos

Postado em 20 de Agosto de 2020 – Ricardo Ferraz (Veja), Johanns Eller (O Globo) – Edição Semana On

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Não é apenas o risco de contágio por coronavírus que aflige pais e mães de alunos prestes a retornarem às salas de aula em todo país. A medida em que o ano letivo avança, uma dúvida relacionada ao ensino também se alastra: “o quanto meu filho aprendeu durante a pandemia?” A resposta é complexa e depende de uma série de fatores – do acesso ao conteúdo ao grau de comprometimento com os estudos – mas é praticamente consenso que as aulas à distância diminuíram o rendimento escolar. Uma pesquisa, encomendada pela Fundação Lemann, Itaú Social e Imaginable Futures ao Instituto DataFolha joga luz sobre esse e outros questionamentos e mostra que os responsáveis pelas crianças e adolescentes querem garantir que nenhum conteúdo fique para trás. Nada menos que 86% dos entrevistados defendem a continuidade do aprendizado previsto para 2020 durante o ano que vem.

“Seriam anos híbridos. O aluno progride mas faz o quarto ano junto com quinto, por exemplo”, explica Denis Mizne, presidente da Fundação Lemann. “A reprovação de todo mundo não faz sentido. Tem um custo altíssimo para o sistema, aumenta a evasão escolar brutalmente e vai ser muito frustrante diante do esforço de professores, alunos e famílias para oferecer alternativas de ensino durante a pandemia.” Outras sugestões apontadas como alternativas para o aluno não perder totalmente o ano escolar tiveram adesão dos pais acima de 70%. São elas: continuidade das atividades virtuais em casa, em conjunto com as aulas presenciais (92%); aulas aos sábados (76%); aulas em dias alternados, enquanto as restrições da quarentena ainda prosseguem (74%) e ter mais aulas por dia (73%).

O levantamento, realizado pelo Datafolha, entre os dias 7 e 15 de julho, ouviu 1.056 pais em todo o país por telefone, o que corresponde a 1.556 alunos, entre seis e 18 anos de idade, das redes estaduais e municipais de ensino de todas as regiões brasileiras. A margem de erro observada foi de três pontos percentuais. A pesquisa é a terceira do gênero realizada pela organização e permite comparar os dados com resultados anteriores.

Os números mostram, por exemplo, que a tarefa de repor o conteúdo no ano que vem enfrentará grande obstáculos. Para 48% dos pais, os filhos estão menos envolvidos na escola do que no período anterior à pandemia e 18% consideram que eles perderam o interesse pelo estudo. A falta de motivação passou de 46% em maio para 51% em junho. Já a percepção de que não há evolução no aprendizado saltou de 46% para 50%. “Não vai dar tempo de cobrir tudo, porque a gente perdeu muitas horas aula”, diz Mizne. “É preciso escolher o que ensinar. Identificar dentro da base nacional comum curricular quais são os pontos inegociáveis e priorizá-los”, completa.

A boa notícia é que as novas tecnologias se mostraram aliadas dos alunos e professores nas salas de aula. Ferramentas como formulários de exercícios on-line, controle de presença informatizado e encontros virtuais vieram para ficar. A pesquisa revela que o desafio inicial de oferecer acesso aos conteúdos escolares foi cumprido com relativo sucesso: 82% dos alunos receberam atividades pedagógicas, sendo que 44% combinam material impresso com algum tipo de equipamento eletrônico (celular, computador, TV com acesso à internet ou rádio). Em maio, o número era de 74%.

A ideia de que as pessoas matriculadas nas redes públicas de ensino não teriam como acessar o material pedagógico não se mostrou tão verdadeira assim: 95% disseram ter ao menos um aparelho conectado à internet e 52% relataram ter quatro ou mais. O meio mais utilizado, de longe, é o celular – 72% realizaram as atividades pelo aparelho. Mais da metade dos alunos, 51%, tem celular próprio, enquanto 38% dividem com alguém da família.

Em contrapartida, 36% das famílias de todo Brasil disseram ainda não contar com conexão de banda larga em seus domicílios. Na região Norte, o número chega a 52%; no Nordeste é de 47% e no Centro-Oeste, 43%. Fatores como esse fazem com que o uso da tecnologia nas regiões mais afastadas ainda seja um empecilho para educação, enquanto 96% dos alunos realizaram algum tipo de atividade no sul do país, apenas 62% dos estudantes do norte obtiveram o mesmo desempenho.

Para os coordenadores da pesquisa, num primeiro momento, a pandemia vai impactar negativamente na educação brasileira, mas, ao longo prazo, haverá lições positivas que poderão ser extraídas do complicado ano letivo de 2020: “Provavelmente, a gente vai pegar o Ideb de 2021 e todo mundo vai dizer que o ano foi perdido. Mas eu espero que, em cinco anos, a gente perceba o legado de ter abraçado a tecnologia definitivamente após esse período”, diz Mizne.

Crianças e carga viral

Uma pesquisa conduzida pela Escola Médica da Universidade Harvard (EUA), uma das mais conceituadas do mundo, concluiu que o potencial de disseminação do novo coronavírus pelas crianças foi largamente subestimado nos últimos cinco meses da pandemia de Covid-19.

Ao contrário do que diferentes estudos mostraram, o trabalho, apresentado pelos autores como o mais abrangente sobre o assunto até o momento, apresenta evidências sólidas de que crianças podem ser muito mais contagiosas do que adultos, inclusive aqueles em quadro severo da doença, ainda que apresentem apenas sintomas leves.

O artigo, submetido ao periódico científico Journal of Pediatrics nesta quinta-feira, foi escrito por pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts, que integra a Escola Médica de Harvard. Os esforços tiveram o apoio de diversas instituições americanas, incluindo o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) do governo e o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas.

O trabalho avaliou 192 indivíduos de 0 a 22 anos que deram entrada no hospital, dos quais 49 testaram positivo para a Covid-19. Embora no Brasil a lei estabeleça que crianças têm de 0 a 12 anos e adolescentes, de 12 a 18, a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, referendada pelo Congresso Nacional, reconhece que todo indivíduo a partir de 18 anos é considerado criança.

Por questões metodológicas, os autores de Harvard incluíram pacientes de até 22 anos, mas os resultados conclusivos foram obtidos nos indivíduos entre 0 e 16 anos. Em média, a maioria dos que contraíram a doença no grupo amostral tinha entre 11 e 16 anos, embora a doença não tenha poupado nem mesmo bebês com menos de 1 ano.

Metade dos pacientes positivos para a Covid-19 apresentou febre, sintoma que pode ser confundido com alergias e gripes como a do vírus Influenza. Ao todo, 53% deles estavam frequentando a escola. Outros 18 deram entrada na unidade com a chamada Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), uma complicação da Covid-19 em crianças.

Os cientistas encontraram níveis de carga viral do vírus consideravelmente mais altos nas vias respiratórias de crianças nas fases iniciais da doença do que nas de adultos internados em unidades de terapia intensiva. O alojamento do patógeno nas vias aéreas é um dos principais catalisadores de sua transmissão.

Apenas 27% das crianças que testaram positivo para a Covid-19 por meio do teste RT-PCR, que contabiliza a carga viral, tinham uma comorbidade específica — a obesidade. Nenhuma delas tinha doenças cardíacas, pressão alta ou diabetes, que configuram grupos de risco.

Já a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica afetou primordialmente aqueles entre 1 e 4 anos de idade. No caso da síndrome, a obesidade não pareceu desempenhar um papel importante.

Limitação na testagem levou a descompasso em resultados

Para os autores, boa parte dos cientistas incorreu em um erro ao analisar a evolução epidemiológica da pandemia sob a perspectiva sintomática da doença. Acreditava-se que o número reduzido de receptores do coronavírus nas crianças — a chamada proteína ACE2, pela qual a proteína spike do coronavírus entra nas células humanas — levaria a uma menor carga viral. Mas o estudo de Harvard quebra esta correlação e alerta que elas podem ser mais contagiosas independentemente da suscetibilidade à Covid-19. 

Os autores da pesquisa Alessio Fasano, líder do grupo, e a médica Lael Yonker, que liderou o trabalho, afirmaram ao GLOBO, por e-mail, que o descompasso ocorreu em função da limitação de testes no princípio da pandemia, quando apenas pacientes suspeitos da Covid-19 em estado grave eram testados.

“Baseado nessa abordagem epidemiológica, chegamos à conclusão de que a pandemia da Covid-19 parecia se disseminar pela infecção de adultos. A partir da testagem de crianças que viviam em áreas com grandes taxas de contágio, em contato com pessoas que contraíram a doença ou apresentaram sintomas gripais, conseguimos demonstrar que crianças podem se infectar tanto quanto adultos e ter uma carga viral alta”, afirmaram os autores da pesquisa, ambos pediatras do Hospital Geral de Massachusetts.

Argumento pesou para decisão da volta às aulas

O argumento de que crianças transmitiriam menos a doença pesou na decisão de se reabrir escolas em diferentes países. Alguns deles tiveram experiências bem-sucedidas, como a Alemanha e a Dinamarca, enquanto outros viram novos surtos eclodirem após falhas nas medidas sanitárias de prevenção, como Israel. A descoberta, afirmam os autores, indica que o retorno às atividades pode se tornar um vetor de transmissão do coronavírus dentro e fora dos muros da escola, afetando funcionários, professores e a família dos estudantes.

“Se precauções adequadas não forem adotadas quando os alunos voltarem à escola, as crianças podem causar a próxima onda da pandemia de Covid-19”, alertaram Fasano e Lael. “Nosso estudo demonstra que o monitoramento de sintomas, incluindo a checagem de temperatura, não são confiáveis para identificar a doença em crianças”.

As medidas preventivas devem contemplar a testagem rígida e frequente de todos os alunos, acompanhado do uso obrigatório de máscaras, uma rotina regrada de higienização das mãos, o distanciamento social, a limitação de aglomerações e a adoção de um sistema híbrido, que mescle aulas presenciais e remotas.

Sem esse roteiro canônico, reforçam os pesquisadores, o risco de a pandemia persistir e mais pessoas, incluindo familiares, serem expostas ao coronavírus com o retorno das aulas presenciais é “significativo”, o que é agravado em regiões mais pobres e vulneráveis ao patógeno: 51% das crianças positivas para o coronavírus vinham de bairros menos favorecidos, onde famílias tendem a viver em cômodos menores e em vizinhanças densamente habitadas.

A testagem, no entanto, é um desafio mundo afora — especialmente no Brasil. Segundo levantamento do site Worldometer, que compila diferentes bases de dados ao redor do globo, o país figura na 68ª posição no índice de testes por milhão de habitantes. O desempenho é pior do que países vizinhos como Chile e Peru, e até de outros criticados pela condução da crise, como a Bielorrússia e a Rússia. 

O mundo já passou de 22 milhões de casos, segundo um levantamento da Johns Hopkins University (EUA). Se a abordagem epidemiológica deixou de lado a capacidade de contágio e disseminação da Covid-19 por crianças, isso significa que a subnotificação ainda é maior do que se espera?

“É plausível, uma vez que já sabíamos que estávamos olhando apenas para o topo do iceberg por testarmos apenas as pessoas com sintomas severos. Projeta-se um número real de casos de 10 a 20 vezes maior do que o total de diagnósticos confirmados”, afirmaram os pesquisadores. “Para ter uma real dimensão da pandemia, deveríamos conduzir testagens em massa independentemente de sintomas, o que ainda não é possível pela falta de testes e os custos envolvidos. Nossos dados sugerem que há uma imensidão de casos não detectados que podem ajudar a espalhar o coronavírus”.

Síndrome multissistêmica

O estudo também se debruçou sobre a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P). Considerada uma complicação da Covid-19, a condição médica não é restrita a pacientes que contraíram o vírus, mas cientistas têm apontado uma correlação entre o aumento no número de casos da chamada SIM-P e a pandemia. A chamada “tempestade imunológica”, causada pela resposta imune desproporcional do corpo humano à infecção pelo coronavírus, atrelada ao agravamento da Covid-19, desencadeia uma reação inflamatória em crianças.

O trabalho da Escola Médica de Harvard permitiu cruzar a quantidade de carga viral e de anticorpos de ação de médio e longo prazos para o coronavírus para compreender o comportamento da síndrome. Ao contrário das crianças positivas para o coronavírus, não eram os índices de carga viral os mais altos encontrados naquelas diagnosticadas com a SIM-P, mas, sim, os de anticorpos.

Segundo explica o estudo, a resposta imunológica hiperativa, por meio de um processo denominado ativação macrofágica, dá início ao processo inflamatório. A SIM-P pode provocar problemas cardíacos graves, como a insuficiência cardíaca aguda, além de choque. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, foram reportados 117 casos e novos óbitos pela síndrome.

Os autores lembram que, no caso dos pacientes adultos, depois do pulmão, o coração é o órgão preferido do coronavírus. Os pesquisadores sustentam que é preciso maior investigação da síndrome pela ciência a fim de compreender melhor a Covid-19.

“A SIM-P pode ser bem grave em crianças e se manifestar muitas semanas após elas manifestarem um quadro leve ou até mesmo assintomático de Covid-19. Não parece haver fatores de risco claros no desenvolvimento da síndrome, e essa é a principal razão para limitarmos o contágio do coronavírus entre crianças”, alertaram Fasano e Lael.

O estudo aprofundado da SIM-P pode, ainda, aprimorar o desenvolvimento de medicamentos, tratamentos e até mesmo das vacinas contra o patógeno.

“Nós demonstramos que essa resposta desregulada e hiperativa dos anticorpos aparenta estar associada com quadros graves da síndrome. Isso traz indícios do que poderia causar a SIM-P. O sistema imune adquirido parece estar acelerado. Isso é de suma importância, uma vez que vacinas buscam estimular uma resposta imunológica”, disseram os autores. “Durante o desenvolvimento das vacinas, devemos monitorar atentamente as crianças por complicações da SIM-P à medida em que os imunziantes forem lançados.”

Essa resposta imune não é identificada, por outro lado, em pessoas mais velhas, conforme mostra o estudo de Harvard. Por isso, a SIM-P, ponderam Fasano e Lael, não pode ser tratada da mesma forma que um adulto com Covid-19. Um caminho promissor, segundo os médicos, pode ser o uso de antivirais para mitigar os riscos da síndrome em crianças que contraíram a Covid-19.

FONTE: http://www.semanaon.com.br/conteudo/16262/86-dos-pais-querem-que-ano-letivo-atual-continue-em-2021-revela-pesquisa

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